Virginia

Há algum tempo video games estão tentando sair do estereótipo de simples “joguinhos eletrônicos” para algo um pouco mais elaborado e adulto, atraindo outros público que não estão acostumados com a dinâmica de gameplay tradicional. Virginia tenta se enquadrar exatamente neste tipo de jogo, mas com algumas escorregadas no processo.

Desenvolvido pela Variable State, foi anunciado em 2014 mas lançado no outono americano de 2016. Criado com a engine Unity, a pequena equipe no formato de desenvolvimento remoto é composta principalmente por artistas visuais, compositores e diretores.

Como dito no início, esse game é bem diferente do que muitos podem estar acostumados. Ele é um adventure em primeira pessoa (o famigerado termo walking simulator) onde há poucas ações do usuário e quase nada de puzzle, pois o objetivo principal é contar uma boa história. Os criadores embarcam nisso de forma explícita quando no menu inicial, ao invés de escrever “Novo Jogo”, diz “Iniciar Filme”. E nisso o jogo brilha. O storytelling de Vingínia é um algo primoroso e raro de se ver, utilizando de forma muito boa técnicas de cinema, como tomadas de câmeras e corte seco para passagens no tempo. Sobre este último, não me lembro de ter visto algo parecido em nenhum outro jogo de videogame.

Soma-se isso a decisão arriscada dos criadores de contar uma história totalmente muda com poucos textos (traduzidos para português), torna o jogo muito diferente e interessante.

A forma da narrativa de Virginia é diferente de qualquer outro jogo.

A história se passa no verão de 1992. Você controla Anne Tarver, uma recém formata agente do FBI, que junto com sua experiente parceira Maria Halperin, estão investigando o caso de desaparecimento do menino Lucas Fairfax, em Vigínia, EUA. No meio do tumulto dessa investigação, Anne Tarver foi convocada pelo seu superior a investigar a conduta de sua própria parceira. E é nessa dualidade que o jogo tenta achar seu drama, tocando em assuntos fortes do nosso cotidiano como preconceitos, moralidade, honestidade e confiança.

Os diretores e criadores Jonathan Burroughs e Terry Kenny declaradamente espelharam-se em David Lynch para compor a narrativa de Virginia, e isso vai significar referências e caracteristicas das histórias lynchianas, como absurdas alucinações, confusas passagens de tempos e espelhamento de realidades. Mas diferente de Twin Peaks ou Mulholland Drive onde Lynch conduz com maestria sua psicodelia, aqui em Virginia soa como uma referência incompleta. Se separarmos o enredo em duas partes, a primeira metade tem um pé na realidade e conta uma história, já na segunda há uma clara confusão entre realidade, sonho ou alguma forma de premonição, que mesmo dito proposital pelos criadores do jogo, aparenta imatura e mal elaborada.

Em entrevistas e logs dentro do game, o pessoal da Variable State diz que “se você ficou confuso com o final, obrigado, é exatamente o que queremos”. Eles forçam os jogadores a discussões e pesquisas extra game para completar as lacunas da história ou entender o que as imagens abstratas queiram dizer. Rejogar Virginia irá fazer você entender melhor alguns pontos que na primeira vez passou-se batido, mas não garantirá nenhuma resposta. Na verdade pode resultar em ainda mais perguntas. O site de games Polygon listou algumas discussões e interpretações do fórum Reddit sobre o final do jogo. Caso tenha terminado, vale a pena dar uma olhada nos pontos de vistas, e tirar suas próprias conclusões.

Falando do jogo em sí, os gráficos foram criados em low poly, o que traz um charme artístico ao jogo e conversa muito bem com a experiência que eles querem passar. Sobre o gameplay, ele é simples e você não terá muitos pontos de integração, mas, veja que a premissa é exatamente essa. Outro ponto interessante é que o game é muito curto, algo sobre 3 ou 4 horas no máximo, e casa bem com o estilo do jogo. Muitas horas seria repetitivo e cansativo.

Os gráficos dão seu ar de arte ao game.

Por fim, deixei para falar por último sobre um dos pontos altos do jogo, a trilha sonora. Composta por Lyndon Holland e gravada ao vivo pela Orquestra Filarmônica de Praga no renomado estúdio Smecky (que gravou filmes como Estrada Perdida e Cidade dos Sonhos), a música é excelente e faz toda diferença nos planos e cortes de cena, além de passar sentimentos ao que o jogador está vendo. É realmente muito boa.

Podemos resumir que Virginia é um filme confuso que faz o espectador pensar nas possibilidades sobre a história, e que as vezes, é jogavel precisando pegar no controle para interagir um pouco.

Virginia está disponível para XBox One, PlayStation 4 e Steam.

Prós

  • Estilo raro de vermos em video games.
  • A narrativa tenta tocar em assuntos fortes e importantes.
  • Jogo curto, terminando em poucas horas.
  • Emprego de técnicas de cinema, como cortes secos e planos de câmera.
  • Trilha sonora fantástica.

Contras

  • A psicodelia da segunda metade do jogo não agrada.
  • A tentativa de referência as obras de David Lynch soaram imaturas.

Avaliação: Pode Esperar um Pouco.

João Paulo Sossoloti

Cresceu com videogames, prefere MegaDrive ao SNES e acha FFVII um jogo perfeito. Programador web, já rascunhou alguns jogos sem sucesso e gosta de escrever sobre coisas.